1a. Fase – dos primórdios até 1930

a) Publicações do século XIX

Apublicação mais antiga até agora localizada por nós é a da Missa a duas vozes iguais (CMSRB-097-030), de Sigismund Neukomm (1778-1858), publicada em Paris, entre 1836 e 1842. Aparentemente estranha no contexto deste Catálogo, justifica-se, entretanto, pelo fato de ter sido composta no Rio de Janeiro, em 13 de maio de 1818, quando da estada desse compositor no Brasil.

Em seguida, encontramos uma obra de caráter religioso, Priere a Dieu (CMSRB-188/001), da autoria de Francisco de Sá Noronha (1820-1881), compositor, violinista e regente português, que alternou sua atividade profissional entre Portugal e Brasil. Essa obra foi publicada como encarte da revista Minerva Braziliense, de março de 1844, sendo dedicada à "Son Altesse Imperiale". O texto, em francês, é de Emile Adèt.

Francisco Manoel da Silva (1795-1865) teve seu Hymno À Virgem SS (CMSRB-181/001) publicado em 1855 por Teotônio Borges Diniz, cantor e mestre da Capela Imperial, que teve sua firma de impressão até 1858 (Pequeno, 1977:354). Não tivemos acesso à publicação original, mas sim a uma republicação da obra feita por Buschmann & Guimarães, entre os anos de 1890 e 1897, período em que essa firma teve esse nome e estava localizada na Rua dos Ourives, 52 (Pequeno, 1977:358). A chapa original (46 T.B.D.) foi utilizada para tal. O Hymno, em três estrofes, em português, com autoria de Antônio José de Araújo (Hazan, 1999:108), alterna uma voz solo com coro de vozes iguais em uníssono, sendo acompanhado por Armonica[1] ou Piano, conforme consta na partitura.

A coleção Cantos Religiosos e Collegiaes Para uso das casas de educação, da autoria de Rafael Coelho Machado (1814-1887), foi publicada em 1857 (Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, 1857:104).

Rafael Coelho Machado, originário da Ilha da Madeira, foi compositor, professor e autor de livros teóricos, tendo desenvolvido sua atividade profissional no Rio de Janeiro a partir de 1835.

Dessa coleção, que contém itens de vários tipos, cívicos, morais, de sociabilidade, nos interessam os três primeiros, de caráter religioso: Oração Dominical (Padre Nosso) (CMSRB-127/002), Saudação Angélica (Ave Maria) (CMSRB-018/048) e Prece á Virgem Santíssima (Salve Rainha) (CMSRB-183/001), todos de construção simples e destinados para coro em uníssono com acompanhamento de órgão. No que diz respeito a essa textura, encontramos no último parágrafo da introdução da publicação a seguinte observação:

Não estando ainda os nossos collegiaes habilitados a cantar em côro, por falta de ensino de solfejo, e sendo excessivamente elevado o preço da gravura musical entre nós, deixamos de apresentar estes cantos em harmonia vocal; mas as pessoas que os desejarem possuir desta fórma, podem mandar extrahir copias do manuscripto na imperial copistaria do Sr. [Teotônio Borges] Diniz.

Não consta na publicação o nome da casa publicadora, mas sim a expressão “Propriedade do Instituto Episcopal Religioso”. O Instituto Episcopal Religioso foi fundado em 1855 e tinha, entre suas finalidades estatutárias, “estabelecer [...] um archivo de musica religiosa e classica” (Império do Brasil, 1862:222), além de criar um quadro de cantores e instrumentistas que “se promptifiquem a executar a musica religiosa nas Solemnidades catholicas” e ministrar aulas de canto gregoriano, música vocal e órgão (Império do Brasil, 1857:466).

No catálogo de fichas da Divisão de Música da Biblioteca Nacional, encontramos a indicação de outra publicação do mesmo autor, Cantos religiosos para uso das casas de educação, e que teria sido publicada por Heaton e Rensburg, possivelmente em 1857. Podemos supor que se trate de uma republicação da mesma coleção, mas, infelizmente, o exemplar encontra-se extraviado e não pudemos tirar a dúvida.

Tristão José Ferreira (1793-?), nascido em Vila Rica (Ouro Preto), em Minas Gerais, compôs três ofícios para Semana Santa, cujos manuscritos autógrafos, datados de 1839, 1840 e 1841, encontram-se na Coleção do Arquivo Público Mineiro, do Museu da Inconfidência em Ouro Preto.Na mesma coleção encontramos as Matinas de Sexta-feira Santa publicada (CMSRB-016/006). Infelizmente, a ausência da capa nos impede de saber dados, tais como a data, local e firme responsável pela publicação.

Cernicchiaro menciona um Ofício de Semana Santa de Tristão que teria sido publicado em 1854 pela firma Heuton e Rensburg (Cernicchiaro, 1926:307), firma que desenvolveu suas atividades no Rio de Janeiro no período de 1842 a 1856 (Pequeno, 1977:353). O Jornal do Commercio apresenta em duas datas (junho de 1854 e janeiro de 1855) notícias sobre uma subscrição para impressão de 3 Ofícios de Semana Santa de Tristão José Ferreira.

Por outro lado, há o depoimento pessoal de Aloísio Viegas, pesquisador de São João del Rei, sobre “publicações de obras do mesmo Tristão José Ferreira pela Imprensa Oficial de Minas Gerais, ainda na década de 1840”.

Qual a origem da publicação existente no Museu da Inconfidência: Rio de Janeiro ou Minas Gerais?

Antônio Severino da Costa, um músico quase que totalmente desconhecido na historiografia brasileira, teve publicado seu Hymno a Nossa Senhora (CMSRB-124/001) entre 1875 e 1879, período em que a firma Isidoro Bevilacqua teve esse nome e funcionava na Rua dos Ourives, 43 (Pequeno, 1977:356). A numeração da chapa é 2066. Na verdade, esse Hymno faz parte de uma coleção intitulada Hymnario Sacro e Moral, constando de 19 obras religiosas diversas e algumas de caráter moral, todas feitas para crianças. Foram feitas na mesma época avulsamente, com numeração das placas de 2052 a 2069, e mais uma anterior, 1952. Todas elas foram publicadas posteriormente num volume único, em 1898 (número da chapa 4169), já pela firma E. Bevilacqua & Cia. É através do Catálogo dessa firma, lançado em 1900 (E. Bevilacqua, 1900:33-34), que tivemos acesso às informações sobre essa Coleção, da qual só conseguimos localizar até o presente momento o Hymno mencionado acima e um Padre Nosso (CMSRB-187/001).

Antonio Severino da Costa era português, natural de Lamego, tendo vindo de Lisboa para o Brasil em 1829, com 17 anos. Foi organista da Irmandade do Senhor Jesus do Bonfim e Nossa Senhora do Paraíso[2]. Ayres de Andrade menciona seu nome fazendo parte de uma “relação de músicos engajados para tocar na Capela Imperial em 1843, sem designação de instrumento” (Andrade, 1965:II-159), e, também, como participando de um concerto realizado em 21 de junho de 1841 no Paço Imperial (Andrade, 1965:II-180).

Voltamos a encontrar seu nome ocupando cargos diversos na Sociedade de Música ou Sociedade Musical de Beneficência, no período de 1857 a 1865 (Santos, 1942:309-310).

Antônio Severino da Costa foi professor primário na capital do império. Segundo a pesquisadora Alessandra Schueler, ele “exercia o cargo de professor público primário na cidade desde, pelo menos, o final da década de 1830, quando encontrei o primeiro registro de seu nome nos quadros do magistério público” (Schueler, 2005:346). Foi também professor de música da Escola Normal do Município da Corte, fundada em 1874[3] (Cunha, 2007).

Gennaro Arnaud, pianista nascido em Nápoles, atuou no Rio de Janeiro durante o século XIX, tendo falecido em 1884 (Andrade, 1967:II-138). Teve duas obras suas publicadas: um Salutaris hostia (CMSRB-122/030), para três vozes femininas e órgão, pela firma Viúva Canongia, entre 1872 e 1877. período em que a firma esteve na Rua do Ouvidor, 111 (Pequeno:1977:355); e uma Ave Maria (CMSRB-018-060), em italiano, para canto e piano, pela firma Buschmann & Guimarãens, antes de 1890.

Domingos José Ferreira (1837-1916), compositor carioca, compôs uma Ave Maria para meio-soprano e piano em Dó menor, em português, em 1864 (Marcondes, 1977:242). A obra foi publicada, provavelmente na década de 1870, por Narciso & Napoleão. A baixa numeração da placa (1828) nos dá uma razoável certeza sobre essa data. Não localizamos essa publicação, mas sim uma republicação dela, já por uma firma sucessora, Sampaio Araujo & Cia, após 1913 (CMSRB-018/019).

Demétrio Rivero (?-1889), violinista de origem argentina, foi professor do Conservatório Imperial de Música durante 40 anos, na segunda década do século XIX, conforme podemos acompanhar nas listagens de Santos (1942:312-315). Localizamos sua Ave Maria para dois sopranos e contralto, em português, publicada pela firma A. Napoleão & Cia (CMSRB-180/001). O nome da firma naquele momento e o endereço nos indicam que a publicação ocorreu após 1893. Entretanto, a baixa numeração da placa utilizada (1372) nos remete para um período bem anterior para a publicação original, antes de 1877, quando o número de peças publicadas pela firma Narciso & Napoleão teria atingido o número de 2000 (Pequeno, 1977:357).

O violinista cubano José White (1836-1918), que viveu e atuou no Rio de Janeiro, entre 1879 e 1889, teve duas obras suas publicadas pelo Imperial Estabelecimento Narciso & Napoleão: Adoremus, em latim, para três vozes iguais, barítono solo e órgão (CMSRB-004/001), e Ave Maria, também em latim, para três vozes iguais e órgão (CMSRB-018/003). A publicação ocorreu provavelmente no período entre 1880 e 1889, quando não só a firma teve esse nome e mantinha como endereço a Rua dos Ourives, 89 (Pequeno, 1977:357), como também foi o período em que o compositor viveu no Brasil. Não há numeração nas chapas utilizadas.

Ainda na década de 1880, Presciliano Silva (1854-1910), mineiro de São João del Rei, publicou em Campinas, onde se estabeleceu em 1885 (Nogueira, 1997:400), sua Missa para pequena orchestra, op.17 (CMSRB-097/013), nesse mesmo ano. Não há identificação da firma publicadora nem a numeração da chapa utilizada.

Flávio Elysio é o pseudônimo com que assinava suas composições Alfredo d’Escragnolle Taunay, o Visconde de Taunay (1843-1899), figura de destaque no cenário musical do Rio de Janeiro, na segunda metade do século XIX. Temos dele três Ave Marias publicadas no período que nos interessa. A primeira, op.51, tem como subtítulo “para Carlota Paixão” e foi publicada por Buschmann & Guimarães (CMSRB-018/016). A numeração da chapa utilizada, 3309, aponta para meados da década de 1880, talvez antes. Consta na capa a seguinte informação “várias vezes interpretada no mez de Maria (Maio) de 1887, na Matriz de Petrópolis”. É possível imaginar que essa informação remeta a uma publicação anterior. A obra é escrita para duo de soprano e contralto e piano.

As duas outras Ave Marias foram localizadas já como publicações após 1913, pela Sampaio Araújo & Cia, firma que sucedeu à A. Napoleão & Cia nesse ano (Pequeno, 1977:357). De toda forma, a numeração das chapas utilizadas (3537 e 3592) aponta as publicações originais para a década de 1880, talvez antes. As duas publicações fazem parte da Coleção Lyra Sacra, e têm como opus 60 e 62, respectivamente. A op.60 foi escrita para voz e piano (CMSRB-018/014) e a op.62 para meio-soprano e piano (CMSRB-018/009). Todas as Ave Marias de Flávio Elysio têm o texto em latim.

Antônio Ferreira do Rego é outro músico praticamente desconhecido na historiografia musical brasileira. Na publicação de sua Ave Maria para voz e piano, ele é dado como aluno do Imperial Instituto dos Cegos, atual Instituto Benjamin Constant, no Rio de Janeiro. Santos menciona seu nome como professor de órgão e piano na mesma instituição, em 1890 (1942:317) e Cernicchiaro o cita “entre os organistas cegos mais hábeis” (1926:607). A publicação mais antiga que temos dessa obra foi feita por Vieira Machado & Cia Editores, entre 1893 e 1908 (CMSRB-018/024), tomando por base o endereço dessa firma naquele momento, Rua dos Ourives, 51 (Pequeno, 1977:358). Entretanto, acreditamos que a publicação original deva ser anterior a esse período, não só pela baixíssima numeração da placa utilizada (106), como pela já mencionada apresentação de Antônio como aluno do Imperial Instituto de Cegos. Sua Ave Maria é escrita em português.

Em 1890, Carlos Gomes (1836-1896) tem sua Ave Maria publicada pela firma Bevilacqua, em duas versões: para soprano ou tenor (em Sol bemol maior) e para meio-soprano ou barítono (em Fá maior), sempre com acompanhamento de piano. Na partitura, o idioma utilizado é o italiano, mas as partes avulsas encartadas apresentam versões para o latim e o português.

Firmino Silva teve sua Ave Maria op.2 publicada por Buschmann & Guimarãens, antes de 1897, ano em que a firma mudou seu nome para Buschmann, Guimarãens & Irmão (Pequeno, 1977:358). Na capa da publicação há uma dedicatória ao Maestro Presciliano Silva, irmão do compositor.

A firma E. Bevilacqua & Cia publica em 1897 e 1898 duas obras de José Maurício Nunes Garcia (1767-1830): a Missa de Requiem (CMSRB-142/007) e a Missa em Si bemol (CMSRB-097/008), respectivamente. Essas publicações são fruto de uma grande campanha empreendida pelo já mencionado Visconde de Taunay, no final do século XIX, para resgatar a memória do compositor mulato carioca. As chapas têm como números, respectivamente, 3713 e 3883. Ambas as edições estiveram sob os cuidados de Alberto Nepomuceno (1864-1920), e contêm apenas as vozes com acompanhamento de órgão ou harmônio. A edição do Requiem foi estudada com maior profundidade em texto publicado por nós anteriormente (Figueiredo, 2001:22-26). Ainda em 1898, foram publicadas as partes vocais da Missa Festiva (Missa de Santa Cecília) (CMSRB-097/026), do mesmo José Maurício. Essas partes foram utilizadas na execução da obra na inauguração da igreja da Candelária, em julho de 1898. A firma publicadora é a mesma e a numeração da chapa utilizada é 3983.

Marieta Neto é outra musicista praticamente desconhecida. Cernicchiaro a menciona como “cantora predileta dos salões aristocráticos de seu tempo”, já atuante no Club Mozart em 1882, sob o nome de Marieta Howat (1926:535). De sua Ave Maria, em latim, destacada pelo cronista italiano, temos como publicação mais antiga encontrada aquela feita por Vieira Machado & Cia, já a partir de 1911 (CMSRB-018/034). Entretanto, a baixa numeração da placa utilizada (620) nos indica a publicação original como ainda ocorrida em meados da década de 1890[4].

De Marieta Neto temos ainda outra obra publicada por Vieira Machado & Cia Editores, um O Salutaris, para soprano e piano. O nome da firma naquele momento, o seu endereço, Rua dos Ourives, 51, e a numeração da placa utilizada, 903, nos indicam o período entre 1893 e 1901 como data da publicação original.

Outra Ave Maria, de autoria de Agostinho Luis de Gouveia, em latim, foi publicada por Buschmann & Guimarães. Essa publicação ocorreu provavelmente antes de 1897 (CMSRB-018/013), quando a firma mudou de nome para Buschmann, Guimarães & Irmão (Pequeno, 1977:358). Outro dado importante é a numeração da placa utilizada, 2153. Pequeno afirma que em 1897 a quantidade de obras publicadas pela firma havia chegado a 3500 (1977:358). Agostinho Luis de Gouveia é mencionado por Cernicchiaro (1926:521) como oboísta, mas também professor de fagote no Instituto Nacional de Música no Rio de Janeiro. Marcondes (1977:329), que se refere a ele como Luís Agostinho de Gouveia, também o menciona como oboísta, fagotista e regente, dando como ano de sua morte 1941.

Cavalier Darbilly (1846-1918), pianista atuante no Rio de Janeiro na segunda metade do século XIX, teve uma sua Ave Maria em Mi bemol maior para voz e piano, em latim, publicada por Buschmann & Guimarães, em data anterior a 1897 (CMSRB-018/006). Mais uma vez, o nome da firma e a numeração da placa utilizada (3310) são dados importantes para tal datação.

João Pedro Gomes Cardim (1832-1918), compositor de origem portuguesa, falecido em São Paulo, teve publicado pela E. Bevilacqua & Cia um O Salutaris para meio-soprano e piano (CMSRB-122/023). A numeração da placa (4091) nos indica 1898 como o ano da publicação.

Duas publicações oitocentistas foram feitas por iniciativa de José Maria Xavier (1819-1887), compositor mineiro de São João del Rei, impressas em Munique, Alemanha. São a Missa no.5 (1884) (CMSRB-097/005), constando apenas de Kyrie e Gloria, e as Matinas do Natal (CMSRB-034/001) (1885), com o Invitatório e os oito Responsórios. Ambas as peças são para coro e orquestra. Infelizmente, não há identificação da firma publicadora nem numeração das chapas utilizadas.

A firma Fertin de Vasconcelos & Morand teve, aparentemente, pouquíssima participação na divulgação do repertório sacro e religioso brasileiro. Encontramos com sua marca, até agora, apenas duas publicações. Do compositor cearense Alberto Nepomuceno (1864-1920), uma Ave Maria em português, com texto de Juvenal Galeno (1836-1931), para dois sopranos e dois contraltos (CMSRB-018/011), com numeração da placa utilizada 231, e outra Ave Maria em português, para dois sopranos e contralto (CMSRB-018/005), de autoria de Frederico Nascimento, com numeração da placa utilizada 232.

Frederico Nascimento (1852-1924), violoncelista português, foi professor de seu instrumento no Instituto Nacional de Música a partir de 1891 (Santos, 1942:316). Foi também professor de Harmonia nessa instituição (Santos, 1942:517).

A firma Fertin de Vasconcelos & Morand teve curta duração, praticamente apenas durante a década de 1890, tendo encerrado suas atividades no início do século XX (Pequeno, 1977:358). Assim sendo, temos a certeza de que ambas as publicações tenham ocorrido em meados da década, embora não tenhamos como precisar o ano.

Fausto Zosne (1873-1906), pseudônimo do Dr. José Ribeiro de Souza Fontes (Cernicchiaro, 1926:345), médico do imperador D. Pedro II (Muaze, 2006), foi compositor predominantemente de música para entretenimento. Entretanto, compôs também obras sacras e religiosas. Sua Salve Maria, para voz e piano, foi publicada na coleção Musica Sacra da E. Bevilacqua & Cia, em 1898 (CMSRB-144/001), conforme podemos deduzir da numeração da placa utilizada (3940). Seu O Salutaris hostia(CMSRB-122/031) foi publicado pela firma Manoel Antonio Guimarãens, em 1899 (data expressa na publicação, 18-12-99, fato raro). Um anúncio dessa mesma firma, já no século XX indica mais duas obras de Zosne: Padre Nosso e Tota pulchra, ainda não localizadas.

Na capa da publicação do Hymno, de Francisco Manoel da Silva, encontra-se uma listagem de outras publicadas pela firma, Buschmann e Guimarães. Nessa listagem estão duas obras de caráter religioso, ainda não localizadas: In dolce sonno, de Francisco de Sá Noronha (1820-1881) e Acuta lancia, de Rafael Coelho Machado, ambos já mencionados anteriormente.

Acuta lancia é dada por Sacramento Blake como publicada em 1882[5].

Outro compositor atuante no final do século XIX e início do século XX, do qual ainda não temos informações é Alfredo Ângelo, cuja Ave Maria, para canto e piano (CMSRB-018/059) foi publicada pela firma Buschmann & Guimarãens, entre 1890 e 1897.

Em sua imensa maioria, as publicações vistas até aqui servem como divulgação de autores vivos em seu tempo. Exceções são as publicações de José Maurício Nunes Garcia, o Requiem e a Missa em Si bemol. A publicação do Hymno À Virgem SS de Francisco Manuel da Silva, no final do século XIX, representa também exceção, embora tenhamos visto que a publicação original teria ocorrido na década de 1850, quando o autor estava em plena atividade.

Podemos constatar que, afora Carlos Gomes, José Maurício, Alberto Nepomuceno e Francisco Manoel da Silva, nenhum outro compositor de envergadura da época teve sua obra sacra publicada no período. Nomes como Leopoldo Miguez (1850-1902), Henrique Alves de Mesquita (1830-1906) e outros estão ausentes, embora saibamos que compuseram obras sacras ou religiosas. Mesmo nomes destacados no cenário da música sacra, tais como Hugo Bussmeyer (1842-1912) e Archangelo Fiorito (1813-1887), mestres da Capela Imperial, não parecem ter sido contemplados.

Quase todos os autores publicados podem ser classificados como amadores, pelo menos no que diz respeito à atividade composicional: Antonio Severino da Costa, Marieta Neto, Cavalier Darbilly e outros.

Podemos nos perguntar o porquê desse estado de coisas. Uma hipótese possível é que os próprios autores financiassem a publicação de suas obras. Um anúncio no Catálogo Bevilacqua de 1913, diz que:

Há muitos annos, além de editar todas as Edições Bevilacqua, dedicou-se ela também a publicações de obras alheias, poupando aos seus freguêzes tempo e dinheiro, sem obriga-los a recorrer às officinas da Európa, e conseguindo todavia satisfazer sempre às mais severas exijencias (Edições Bevilacqua, 1913:VIII).

Segue-se uma lista de preços pelos serviços, dependendo das características das publicações encomendadas.

Imprimir obras na Europa, principalmente na Alemanha, era muito comum. Vimos acima como José Maria Xavier imprimiu duas obras suas em Munique, Alemanha. Pequeno dá exemplos de firmas paraenses que imprimiam obras naquele país (1977:362).

Fica claro nos escritos do Visconde de Taunay, que a publicação da Missa de Requiem de José Maurício foi feita mediante subscrição entre amigos e conhecidos:

"Foi prova decisiva a impressão da Missa de Requiem, que afinal arranquei – sim arranquei, é o termo adequado – dos prélos. E’ que não é nada agradavel estar-se, sobretudo em época de tão generalisada escassez de dinheiro, a pedinchar, a mendigar junto a amigos e conhecidos um obolo qualquer para dar-se á estampa uma obra musical de uns 80 annos atrás e missa funebre por cima" (Visconde de Taunay, 1930:34).

Continua mais adiante: “Muitos, quasi todos, ou todos assignavam só por méra condescendencia para com a pessoa que os importunava [...]” (Visconde de Taunay, 1930:34).

Se é verdade que muitas dessas publicações poderiam ter sido feitas às expensas dos compositores ou de seus admiradores, é fato de que muitas delas continuaram sendo republicadas durante o século XX, muito tempo depois da morte desses autores. Um caso típico é a Ave Maria de Marieta Neto.

O repertório publicado é predominantemente religioso, porém não sacro, com exceção das obras de José Maurício, José Maria Xavier, Presciliano Silva e Tristão José Ferreira.

É significativa a quantidade de Ave Marias e O Salutaris. Como explicar esse fenômeno?

No caso da Ave Maria, a questão mariana estava em grande destaque na segunda metade do século XIX. Inicialmente, com a proclamação do dogma da Imaculada Conceição, pelo papa Pio XI, em 1854, e, em seguida, com o importante episódio das aparições de Lourdes, em 1858. No Brasil, temos, ainda, a crescente devoção a Nossa Senhora Aparecida, durante o século XIX.

Os Salutaris hostia foram largamente usados na Benção do Santíssimo Sacramento, cerimônia de enorme apelo popular.

Em sua esmagadora maioria, as obras publicadas são para canto solo com acompanhamento de piano, órgão ou harmônio. Mesmo o Requiem e a Missa em Si bemol, de José Maurício, originalmente com orquestra, foram reduzidos para órgão ou harmônio. A exceção está nas obras de Presciliano Silva, José Maria Xavier e Tristão José Ferreira, para coro, solistas e orquestra.

Como seria a recepção dessas publicações na época? Como se traduzia em volume de vendas?

Na Introdução da publicação da Missa em Si bemol, de José Maurício, logo após o Requiem, consta: “O sucesso que coroou a empreza da publicação da Missa de Requiem (1816) do Padre José Maurício animou-nos a desvendar aos olhos dos brazileiros mais uma jóia de entre as muitas que nos legou o distincto musico.”

Já nos parece surpreendente que a retomada de José Maurício tenha ocorrido com a publicação de um Requiem. Qual foi o critério para essa escolha? O Visconde de Taunay apresenta depoimentos sobre a reação dos amigos e conhecidos a quem pedia fundos para a publicação dessa obra: “Ainda se fosse cousa no gosto moderno, reflexionava um [...]” “Que! [...] um requiem! Para longe o agouro!” [e mais um terceiro que] “antipathisava com o tom de ré menor em que a musica era escripta” (Visconde de Taunay, 1930:34).

Mais surpreendente ainda é a afirmação de que o empreendimento teria sido “coroado de sucesso”. Como se mede o sucesso de um Requiem, feito para circunstância litúrgica tão específica? Podemos entender o sucesso de uma Ave Maria, que pode ser cantada por qualquer jovem cantora em muitas situações religiosas e paroquiais, mas não de um Requiem, obra de tais proporções e dificuldade.

O fato é, entretanto, que essa publicação do Requiem ensejou várias execuções, aparentemente em concertos, no Uruguai, na Itália e nas Bélgica (Visconde de Taunay, 1930:38-43).

Todas as publicações do período que conseguimos localizar apresentam obras avulsas, nunca um volume com obras diversas. Exceções são as coletâneas Cantos Religiosos e Collegiaes Para uso das casas de educação, de Rafael Coelho Machado e o Hymnario Sacro e Moral, de Antonio Severino da Costa.

Todas as publicações levantadas são do tipo prática. A informação se restringe ao texto musical. Exceções são o Requiem e a Missa em Si bemol, de José Maurício, que contêm introduções, mencionando até fontes utilizadas e esboços de procedimentos editoriais.

É muito comum encontrarmos nessas publicações dedicatórias. Elas podem ser para os santos (“À N.S.de Lourdes”, Ave Maria, de Agostinho Luiz de Gouveia), para autoridades (“A S.M.A Imperatriz”, Hymno À Virgem SS, de Francisco Manoel da Silva) ou para pessoas diversas (“A Exma Sra. D. Hermínia Barrouin Goulart”, Ave Maria, de Cavalier Darbilly), provavelmente intérpretes ou amigos dos autores.


Aspectos gráficos

O método usado para impressão em quase todas as firmas publicadoras era certamente a litografia[6], que consiste em transferir um modelo, produzido de várias formas, para uma chapa de pedra ou de zinco (neste caso, fala-se de zincografia), a partir da qual é feita, então, a impressão.

A litografia foi inventada pelo alemão Alois Senefelder (1771-1834), em 1796. Chegou ao Brasil em 1819, trazida por Arnauld Marie Julian Pallière (1784-1862), que desenvolveu suas atividades no Arquivo Militar, sendo substituído, em 1825, pelo suíço Johann Jacob Steimann (1800-1844) (Leme, 2005:507).

Encontra-se no Museu do Diamante, em Diamantina, MG, um raríssimo exemplar de placas para impressão, em metal. A obra gravada é um Libera me, do compositor diamantinense João Batista de Macedo, o “Pururuca”. A numeração da placa de impressão, B 1072 G, nos indica a firma Buschmann e Guimarãens, do Rio de Janeiro. Essa baixíssima numeração nos indica também a década de 1880 como a provável época de publicação da obra. Infelizmente, não conseguimos localizar qualquer exemplar impresso.

Um dos métodos para se gerar o modelo de partitura musical a ser usado na impressão através da litografia ou zincografia foi o Sistema Taquigráfico Tessaro, processo patenteado pelo italiano Ângelo Tessaro, em 1887.

O Jornal do Commercio, de 4 de dezembro de 1895, nos traz uma interessante descrição desse sistema e das demais fases do processo de impressão[7]:

Adapta-se o papel apropriado a uma chapa de metal que se colloca em um chassis; esta peça tem todos os movimentos e sobre ella funccionão os seguintes diverso aparelhos:
Lineatrice, com que se fazem a pentagrama, as barras de colcheas, semicolcheas, etc.;
Ponzonatrice, que serve para fazer as cabeças das notas e todos os signaes musicaes;
Tiralinee , com que se fazem as hastes das figuras, divisões de compassos, etc.
[...]
Terminado o trabalho graphico, faz-se então a revisão. O processo permite corrigir erros, omissões, trocas, etc., sem que se inutilise o trabalho feito.
Concluídos os modelos graphicos, são levados á officina de zincographia, onde, por meio de reagentes chimicos, faz-se o transporte dos modelos para as chapas de zinco; estas passão para a officina de impressão e então para a machina, onde é feita a tiragem.

A notícia destaca ainda o fato de o método ser próprio para o trabalho feminino.

As publicações avulsas constam das capas e do miolo. O miolo, com o texto musical, é mantido intacto, na maior parte dos casos, quando ocorrem republicações. A informação fundamental para nós nesses miolos é sempre a numeração da chapa utilizada, que costuma ser mantida, mesmo quando há mudança das firmas responsáveis pela publicação. A capa da frente traz os créditos: nome do compositor, nome da composição, destinação, nome da firma publicadora, “logomarca”, nome da coleção, quando é o caso (Lyra Sacra, Música Sacra, etc.), dedicatórias, etc. São sempre ornamentadas com estampas de vários tipos e coloridas. Wehrs lista os nomes de alguns artistas responsáveis por essas capas: A. Norfini, Orestes Acquarone, Julião Machado, Belmonte, etc. (1990:87). As capas de trás, e muitas vezes as próprias capas da frente, trazem ainda listagens de outras obras publicadas pela firma impressora, com nome dos compositores, títulos das obras e preços. Essas listagens são valiosíssimas para o pesquisador, apontando, muitas vezes, publicações realizadas, mas não localizadas.


Figura 1 - Capa da Ave Maria de Abdon Milanez, publicada pela E. Bevilacqua & C. entre 1913 e 1925 (CMSRB-018/044).

Figura 1 - Capa da Ave Maria de Abdon Milanez, publicada pela E. Bevilacqua & C. entre 1913 e 1925 (CMSRB-018/044).


b) Publicações das três primeiras décadas do século XX

As características dessas publicações continuam basicamente as mesmas, conforme descrevemos acima, principalmente no que diz respeito à última década do século anterior.

As Ave Marias continuam predominando. A maioria continua sendo para canto solo e piano ou harmônio, eventualmente com a participação do violino, viola e até harpa. Em seguida, uma breve listagem dessas publicações de Ave Marias:

AutorFirmaChapaAnoCMRSB
Vincenzo CernichiaroManoel Antônio Gomes Guimarães5146[19-?]018/039
Dagmar Chapot-PrevostSampaio Araújo & Cia7450[após 1913]018/043
Bernhardt WagnerManoel Antônio Gomes Guimarães4810[190-?]018/047
Kinsman BenjaminVieira Machado & Cia10161902018/028
Iwan d’HunacE.Bevilacqua & Cia51691902018/022
Abdon MilanezE.Bevilacqua & Cia5847[entre 1899-1910]018/046
Domingos FerreiraSampaio Araújo & Cia1828[após 1913]018/019
Júlio ReisE. Bevilacqua & C.4881[entre 1901-1905]018/004
Arnaud GouvêaVieira Machado & Cia1803[entre 1908-1912]018/031

Também os O Salutaris continuam em destaque:

AutorFirmaChapaAnoCMRSB
Francisco BragaE. Bevilacqua5171[entre 1907-1911]122/007
Hugo BussmeyerManoel Antônio Gomes Guimarães4342[19-?]122/018
Vincenzo CernichiaroSampaio Araújo & Cia7753[após 1913]122/020
Dagmar Chapot-PrevostSampaio Araújo & Cia7450[após 1913]122/019
Arnaud GouvêaVieira Machado & Cia1005[entre 1911-1925]122/002
Bernhardt WagnerManoel Antônio Gomes Guimarães4811[190-?]122/021

Mencione-se, ainda, várias republicações de Ave Marias, de Marieta Neto, Antônio Ferreira do Rego e Carlos Gomes, além de O Salutaris da mesma Marieta Neto e Abdon Milanez.

A coleção Quatro Trechos de Música Sacra apresenta apenas obras de Bernardt Wagner. Além da Ave Maria e do O Salutaris já mencionados acima, foram publicados também um Tantum ergo (4812) (CMSRB-161/005) e um Ingemisco (4813).

Infelizmente, não é possível uma datação precisa das publicações da firma Manoel Antônio Gomes Guimarães, firma estabelecida no início do século XX como sucessora de Buschmann, Guimarães e Irmão (Pequeno, 1977:357).

Encontramos um Padre Nosso de Francisco Braga como separata do número 4 da Revista Renascença (CMSRB-127/001), publicação periódica de curta duração (1904-1908) da E. Bevilacqua & Cia.

Além dos compositores já mencionados nas publicações do século XIX, novos nomes surgem.

Hugo Bussmeyer (1842-1912), alemão de nascimento, teve destacado papel na vida musical religiosa da segunda metade do século XIX, no Rio de Janeiro, tendo sido mestre da Capela Imperial no período de 1875 a 1889.

Francisco Braga (1868-1945) é um dos mais importantes compositores brasileiros no final do século XIX e início do século XX. Sua vastíssima obra inclui óperas, música de câmara, orquestral e religiosa.

Vincenzo Cernicchiaro (1858-1928), violinista italiano que exerceu grande atividade musical no Rio de Janeiro, tendo sido professor do Instituto Benjamin Constant e do Instituto Nacional de Música. Suas obras foram feitas predominantemente para seu instrumento.

O mineiro Arnaud Gouvêa (1865-1942) foi pianista e organista, tendo sido professor do Instituto Nacional de Música.

Bernhardt Wagner (1835-1920), pianista de origem alemã que desenvolveu sua carreira no Rio de Janeiro, na segunda metade do século XIX, tendo sido o organizador do Club Familiar do Andaraí, em 1883 (Magaldi, 1995:13).

Abdon Milanez (1858-1927), paraibano de nascimento, era engenheiro, mas exerceu intensa atividade composicional, principalmente para o teatro. Chegou a ser diretor do Instituto Nacional de Música, entre 1916 e 1922.

Kinsman Benjamin (1853-1927), músico amador, fundou o Club Beethoven, importante agremiação musical na década de 1880. Foi também crítico musical de vários periódicos.

Iwan d’Hunac (1870-1953) era o pseudônimo do paranaense João Itiberê da Cunha, que foi crítico musical no Rio de Janeiro no início do século XX.

Sobre a musicista, provavelmente amadora, Dagmar Mattoso Chapot-Prevost nada foi possível encontrar. Suas duas obras publicadas no período levavam o pseudônimo de Magdar.

Sejam destacados, ainda, os dois volumes publicados pela E. Bevilacqua & Cia, contendo várias obras em cada um, fato não muito comum nesse mercado, onde predominam publicações de obras avulsas, como vimos acima.

O primeiro, em 1902, intitulado Semana Santa, contém sete composições para coro em uníssono e órgão, de Hugo Bussmeyer.

O segundo, em 1906, contém 13 Padre Nosso da autoria de Francisco Braga, com o seguinte subtítulo:

Cantados nas Trezenas de S. Francisco de Paula, em 1903, por DD. Camilla da Conceição, Olivia da Cunha, Margarida P. Souza, Eulina De Milano e Srs. Hygino de Araújo, Castro Lima, João Pinto Junior e Elysio Fernandes, sob a direcção do Professor Humberto Milano.

Esses 13 Padre Nosso são para diferentes formações: a maioria para voz e órgão, mas também para coro masculino, coro misto a 3 com órgão, 4 vozes a Capella, ou coro em uníssono. Um deles tem acompanhamento de harmônio e outro prevê uma parte de violoncelo. Não foram incluídos no Catálogo por não ser possível saber exatamente quais teriam sido compostos ainda no século XIX.

Uma nova tendência para o repertório sacro-religioso começa a surgir nas publicações da Escola Gratuita São José, de Petrópolis.

Essa instituição foi fundada em 7 de janeiro de 1897, junto ao convento dos franciscanos naquela cidade. A atividade musical foi muito estimulada nessa escola, que tinha entre seus professores dois nomes importantes para a música sacra no Brasil: Frei Pedro Sinzig, austríaco (1876-1952), e Frei Basílio Röwer, alemão (1877-1958).

Já em 1908, encontramos um Catálogo com grande quantidade de publicações das obras desses dois compositores. São Missas, Ladainhas e coleções de motetos e cânticos sacros, escritos para uma, duas, três e quatro vozes iguais, com acompanhamento de órgão ou harmônio e até mesmo a Capella (Escola Gratuita São José, 1908). Essas obras também não foram incluídos no Catálogo por não ser possível saber exatamente quais teriam sido compostos ainda no século XIX.

O repertório desenvolvido na instituição é bastante diferente daquele praticado até então. Está na esfera de influência do chamado movimento ceciliano, originário no século XIX, na Europa, e que preconizava uma volta à sobriedade do canto gregoriano e da polifonia renascentista na música litúrgica, opondo-se a avalanche de música sacra com características operísticas. Entre os expoentes desse movimento estão os italianos Giovanni Tebaldini (1864-1952) e Lorenzo Perosi (1872-1956), além do alemão Franz Xaver Haberl (1840-1910). Uma das culminâncias desse processo está no Motu proprio do papa Pio X, de 22 de novembro de 1903, que regulamenta a música sacra a ser utilizada nas igrejas. Sintomaticamente no dia de Santa Cecília, que dá o nome ao movimento.

No Brasil, e mais especificamente, no Rio de Janeiro, surge um movimento na mesma direção capitaneado pelo jornalista José Rodrigues Barbosa (1857-1939), tendo adeptos, tais como Alberto Nepomuceno, Visconde de Taunay, Francisco Valle (1869-1906) e outros músicos e religiosos da época. Foi um processo longo, detalhadamente descrito por Goldberg (2006:138-149).

Apesar da evidente predominância de publicações brasileiras enfocando música de salão e de entretenimento, no século XIX, vão surgindo aos poucos publicações do repertório brasileiro sacro e religioso, principalmente na última década desse século e continuando na primeira década do século XX.

As características desse repertório publicado são diversas. As obras para canto e piano, ou harmônio, ou órgão são em maioria, com destaque para Ave Marias e O Salutaris. A maior parte das publicações representa divulgação de obras de autores vivos naquele momento e, raramente, assumem perspectiva histórica. Os autores são quase todos amadores, pelo menos na atividade composicional, ou são mais conhecidos em sua época pela sua produção secular.

Não conseguimos localizar várias das publicações anunciadas nas capas de outras publicações ou em catálogos das firmas especializadas. É possível, até, que a quantidade de publicações seja maior ainda do que anunciadas nessas fontes.

Na capa da publicação do Hymno, de Francisco Manoel da Silva, encontra-se a seguinte nota em destaque:

“Nesta casa encontra-se um lindo sortimento de Missas, Te-Deums, Stabat-Mater, Tantum ergo, Misereres, Ladainhas, Salve Reginas, Salve Marias, Ave Marias, Salutaris, etc., etc.”

Significa dizer que a firma, Buschmann e Guimarães, teria muitas outras obras à disposição dos consumidores, nem sequer mencionadas em detalhe na capa, como outras. Mas, onde estão todas essas publicações?

[1] As descrições de “Harmônica” e “Órgão expressivo” no dicionário de Rafael Coelho Machado (MACHADO, Raphael Coelho. Diccionario Musical – Nova edição – Augmentado pelo autor e por Raphael Machado Filho. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1909, p. 91, 152) apontam para o Harmônio, instrumento largamente empregado no período estudado, informação corroborada pelo dicionário de Frei Pedro Sinzig (SINZIG, Frei Pedro. Pelo Mundo dos Sons – Dicionário Musical, 2ª. Ed. Rio de Janeiro: Livraria Kosmos, 1959, p. 284-285).

[2] Estas informações me foram comunicadas pessoalmente pela pesquisadora Beatriz Rietmann da Costa Cunha, descendente do músico.

[3] Não confundir com a Escola Norma da Corte, fundada em 1880. (Informação disponível em ISERJ, Centro de Memória Institucional do http://cemiiserj.blogspot.com/2008/07/estudando-escola-normal-da-corte.html. Acesso em 19/1/2009)

[4] A firma Vieira Machado, como já mencionado mais acima, colocava, eventualmente, as datas de suas publicações. Sabemos, por exemplo, que uma publicação com numeração de chapa 981 teve como data o ano de 1901, daí nossa certeza de que o número 620 se refere a uma publicação ainda no século XIX.

[5] Informação disponível em http://www.literaturabrasileira.ufsc.br/Consulta/Catalogo.php?obra=57801&pagTemp=0. Acesso em 10/1/2009.

[6] Boorman aponta para a dificuldade de se distinguir uma impressão feita a partir de gravura de outra em litografia. (BOORMAN, Stanley. Printing and Publishing of Music. In Grove Music Online, disponível em www.oxfordmusiconline.com. Acesso em 18/1/2009).

[7] Devo esta preciosa informação ao pesquisador Guilherme Goldberg.

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